Médicos aprovam “face shield”, item incorporado à rotina dos hospitais durante a pandemia

Médicos, biomédicos e tecnólogos do INCOR

A rotina dos profissionais da saúde se transformou desde que os primeiros pacientes com suspeita de Covid-19 começaram a chegar aos hospitais. Muitos se voluntariaram para atender esses casos, outros foram convocados a abraçar a missão, mas todos eles tiveram que aprender a se proteger de um vírus altamente contagioso e potencialmente fatal.

A paramentação é parte importante das mudanças. Além de avental, máscara, touca e luvas, a maioria está usando pela primeira vez as chamadas “face shields”. O equipamento não fazia parte da lista de compras dos hospitais e vem sendo doado por empresas e grupos de voluntários, como esta Rede Proteção Solidária.

Luciana Haddad, cirurgiã especializada em transplante de fígado que pediu transferência para o “covidário” do Hospital das Clínicas, da USP, conta que tanto na enfermaria quanto na UTI os profissionais usam os mesmos equipamentos de proteção individual (EPIs).

“O face shield protege mais que os óculos, então a maioria usa ele”, diz a médica. “E não era um item que o hospital comprava. A gente começou a ver na China, na Europa, e procuramos para comprar, mas era caro e não tinha pronta entrega. Aí começaram a chegar as doações”, conta. “Está sendo muito bom, porque as redes de solidariedade têm se formado com agilidade”, afirma ela, que publica diariamente um vídeo sobre a situação atual do Covid em seu Instagram (@lucianabphaddad).

Luciana lembra que os primeiros modelos de “face shield” entregues no hospital tinham uma tiara que machucava a cabeça ou levavam tecido na fabricação, o que dificultava a limpeza. “O modelo todo de plástico é melhor, porque pode ser todo limpo com álcool”, diz.

O pediatra e emergencista Carlos Buchalla, um dos primeiros doadores desta Rede, aprovou as “face shields”. “Eu já tinha usado outra, mas essa é muito mais confortável, o ajuste na cabeça é muito melhor. Ela é maior, sobre praticamente o rosto todo, o que dá sensação de segurança, e o material não compromete a visibilidade. O pessoal do PS [pronto-socorro] com quem conversei também ficou muito satisfeito”, diz ele.

PARAMENTAÇÃO – No Hospital das Clínicas, toda a equipe participou de um curso de paramentação e desparamentação, porque a hora de vestir e tirar os EPIs é muito crítica.

“Tem que tomar vários cuidados. Nunca colocar a mão na frente, tem que tirar a máscara e o face shield por trás. Nunca pôr a mão em nada que possa ter contato com as gotículas com vírus. A luva e o avental vão pro lixo, enquanto o face shield é limpo numa sala reservada para isso”, conta Luciana Haddad, acrescentando que os fisioterapeutas e enfermeiros são os profissionais que passam mais tempo com o equipamento devido ao contato constante com os doentes.

A médica diz que não tem mais receio de contaminação, como no início da pandemia, porque confia nos EPIs. “Eu achava que todo mundo ia pegar [o vírus] mais cedo ou mais tarde, mas vi que ninguém está se contaminando no hospital porque a proteção funciona”, comemora. Diante da dificuldade de obter os face shields, Carlos Buchala se juntou à noiva e ao pai, que também são médicos, e a mais uma amiga, para financiar um lote de 160 máscaras. “Eu doei dinheiro para a produção porque nos locais em que trabalho o face shield estava em falta. Distribuímos na UTI e no pronto-socorro do Hospital São Paulo, e vamos doar mais um lote”, conta ele.

HC recebe 70 unidades

Face shields” produzidos pela Rede serão usados no “covidário”, área exclusiva para pacientes com suspeita de Covid-19

Um mês atrás, quando começou a desenhar uma máscara para proteger profissionais do Hospital das Clínicas da USP do coronavírus, a pesquisadora e terapeuta ocupacional Cândida Luzo não imaginava que seu modelo seria replicado por uma rede de “espaços maker” de diversas escolas da capital paulista.

“Foi tudo muito rápido, fiquei impressionada”, diz ela, sobre a mobilização de voluntários que levou à criação desta Rede de Proteção Solidária. O modelo de “face shield”, desenvolvido em conjunto com o tecnólogo César Martins, seu colega de Rehab Lab (Laboratório de Pesquisa e Tecnologia Assistiva), atende – e supera – as especificações da Anvisa, oferecendo toda a proteção necessária.

A ideia surgiu quando os atendimentos de pacientes no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC (IOT – https://www.iothcfmusp.com.br/) foram suspensos devido à pandemia. “Na [área de] terapia ocupacional ficamos sem saber o que fazer, então começamos dois projetos. Um deles era de máscaras reutilizáveis feitas com um TNT bem grosso para os funcionários da Ortopedia usarem no transporte público. Paralelamente, comecei a trabalhar em protótipos de “face shields””, conta a pesquisadora, que iniciou sua carreira no HC nos anos 1980. “Fiz o primeiro com uma tesoura, depois pedi para o Eduardo Lopes cortar a laser no Garagem FabLab para ganharmos qualidade.”

As enfermeiras do IOT foram convidadas a avaliar se o modelo atendia as necessidades de proteção no momento da entubação do paciente, que é o mais crítico para o contágio. “Elas ajudaram a pensar por onde as gotículas podiam entrar e começaram a testar os “face shields” na UTI da Ortopedia, que não tem pacientes com Covid-19. Quando disseram que estava ótimo, falamos com o Edu.”

Na segunda-feira (20.abr), as primeiras 70 unidades devem chegar aos profissionais da UTI do “covidário” – como está sendo chamado o setor do HC reservado para atendimento exclusivo de pacientes com suspeita de coronavírus.

A demanda, no entanto, é muito maior. Só no Hospital das Clínicas da USP há 200 leitos de UTI de Covid, mais 700 leitos para casos menos graves da doença, afirma Cândida. E, em cada um deles, ficam ao menos três profissionais, em três turnos diários. “O uso é muito intenso. Tem que ser algo reutilizável e de uso pessoal, que cada profissional possa lavar e cuidar”, afirma.

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